segunda-feira, 9 de junho de 2014

Do blog do Paulinho- Caso Irã: mediocridade de dirigentes expõe Corinthians ao ridículo mundialmente


junho 9, 2014
irã verde
A equipe do Irã, que se prepara para a Copa do Mundo no CT da Ayrton Senna, foi proibida de treinar de camisas verdes pela diretoria do Corinthians.
Demonstração absoluta de imbecilidade do ser humano.
No treino seguinte, os iranianos subiram a campo vestidos de azul, certamente incomodados com a situação.
A notícia correu o mundo, e serviu para expor a todos a mediocridade de quem comanda um clube que arrota grandeza, mas, nos pequenos gestos, vive a mercê dos desejos de torcedores “organizados”, ou seja, o submundo da falta de inteligência, norteado por hábitos desprezíveis.
Imaginem o que não seria falado dos iranianos se o gesto fosse cometido no Oriente Médio, sempre associado ao atraso intelectual de alguns fundamentalistas…
irã azul

Inadimplência em alta no varejo: endividamento familiar já está no talo

A inadimplência no varejo voltou a subir, após respiro em 2013. A notícia é do jornal Valor, e mostra uma tendência preocupante, principalmente quando lembramos que a taxa de desemprego ainda está em patamar bem reduzido para padrões históricos. O aumento da inadimplência tem ligação direta com o maior custo do crédito:
Entre março e abril, 1,3 milhão de brasileiros entraram para o cadastro de inadimplentes do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), que tem 53,8 milhões de devedores inscritos. O aumento no volume de registros foi de 2,1% frente a março e de 8,6% na comparação com abril de 2013, de acordo com a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), entidade que gerencia o SPC Brasil.
[...]
No Banco Central, enquanto a inadimplência (atrasos acima de 90 dias) se mantém estável em 6,5% em relação a valores devidos desde fevereiro, os atrasos de 15 a 90 dias nos pagamentos avançam, tendo passado de 6,2% em fevereiro para 6,9% em abril.
[...]
O endividamento das famílias segue nas máximas históricas, tendo correspondido, em março, a 45,7% da renda acumulada nos últimos 12 meses, segundo o BC. Estudo do instituto Data Popular mostra que pagar contas é uma tarefa difícil de ser executada para dois terços dos brasileiros.
Com menos dinheiro no bolso, os consumidores passaram também a atrasar o pagamento de contas de água, luz e gás. O aumento, segundo a CNDL, foi de 12,38% em abril sobre o mesmo mês de 2013. “As pessoas estão fazendo capital de giro. Deixam de pagar um ou dois meses, depois pagam para evitar o corte no fornecimento e em seguida voltam a atrasar”, diz Pellizzaro Júnior.
Fonte: Valor
Fonte: Valor
A renda perde fôlego junto com a economia, e o custo do excesso de dívidas começa a chegar. Ainda não é um quadro desesperador, mas é um claro sinal de alerta. Caso a economia afunde ainda mais, o nível de emprego pode sofrer, e isso teria efeito catastrófico para a inadimplência. É um cenário que demanda cautela.
Mas nada disso impediu que um irresponsável e populista Lula fizesse um apelo público ao governo Dilma para que este liberasse ainda mais crédito na economia, apenas de olho nas eleições em outubro. O ex-presidente quer dar mais do veneno que tem causado inúmeros males na economia.
Menor renda, prazos mais curtos da dívida, juros maiores: o aperto sobre as famílias endividadas é grande, o que explica em boa parte o clima de pessimismo da população. O governo do PT estimulou isso de forma irresponsável e demagógica, vendendo a ideia de que o verão duraria para sempre, e usando os bancos públicos para fomentar a acelerada expansão de crédito. O inverno chegou. É hora de pagar a fatura…
Rodrigo Constantino

domingo, 8 de junho de 2014

Yoani Sánchez- Território livre do Skype

Um artigo se somou a saga contra as TICs mantida pela imprensa oficial. Na quinta-feira passada uma reportagem contra a fraude eletrônica deixou muitos leitores de Juventud Rebelde com a sensação de que os celulares são uma fonte infinita de problemas. A explosão de acusações sobre planos desestabilizadores que chegam por SMS e os colapsos das redes provocados por manchetes que viajam de um celular para outro, agora se soma “o lucro pessoal” dos que fazem truques para pagar menos por uma chamada ou por uma mensagem de texto para o exterior.
Todo delito de fraude ou desfalque é condenável, legal e moralmente. Contudo, o contexto em que são cometidas estas infrações deve ser levado em conta. Vivemos sob um monopólio estatal – e absoluto – das telecomunicações. A única empresa de telefonia do país, ETECSA, não tem concorrentes no seu ramo e, portanto, fixa os preços muito acima das tarifas habituais no resto do mundo. Um minuto de chamada para o exterior chega a custar ao redor de duas jornadas de um salário mediano. Com uma população emigrada tão numerosa é fácil imaginar as necessidades de comunicação com o resto do mundo que temos na Ilha.
A isso se soma o limitado e escasso acesso a Internet. Sem contar com as novas facilidades de serviços como o Skype, muitos tem preferido recorrer a práticas fraudulentas a renunciar ao chamado para outros lugares do mundo. Penalizar os infratores que fizeram truque como o chamado bypass de voz não resolverá o problema. Não me imagino como uma senhora passada dos sessenta, com um filho emigrado, arriscando-se a ser multada por fraude telefônica quando poderia pagar apenas alguns centavos chamando via internet. Empurrar uma população ao delito, para depois condená-la por levá-lo a cabo, parece-me – pelo menos – puro cinismo.
Tradução por Humberto Sisley

ROBERTO POMPEU DE TOLEDO: Comunismo — fim de sonho


Do blog do Ricardo Setti

Trotsky, exilado no México, retratado entre Diego Rivera e André Breton (Foto: latinamericanstudies.org)
Trotsky, exilado no México, retratado em 1938 entre Diego Rivera e André Breton (Foto: latinamericanstudies.org)
FIM DE SONHO
Leonardo Padura é um escritor que vive em Cuba, não quer sair de Cuba, mas que se permite ser crítico.
É ele o autor de um extraordinário romance, aqui comentado, sobre o assassinato de Trotsky, operando o milagre de fazer a História ressurgir com mais força do que nos livros dos historiadores.
O livro também mostra, a seu modo, o desmoronamento do pesadelo que chegou a ser para muitos um sonho, o comunismo — inclusive em Cuba
Roberto-Pompeu-de-Toledo O Homem que Amava os Cachorros, do cubano Leonardo Padura, recentemente lançado no Brasil, distingue-se como grande romance por dois motivos principais: (1) encarna o milagre da ficção e (2) mostra como o sonho do século XX de uma sociedade justa e igualitária, contido nas revoluções comunistas, virou pesadelo.
O livro trata do assassinato de Leon Trotsky, no México, pelo espanhol Ramón Mercader, a mando de Stalin. Aqui começa o milagre da ficção, quando conduzida por mãos hábeis: acompanha-se com atenção sôfrega da primeira à última das 589 páginas do livro uma história cujo desfecho já se está cansado de conhecer.
Mas o milagre seria pouco, se fosse só esse. O principal é fazer a História, a história de verdade, ressurgir de forma mais viva, mais convincente, e mais “real” do que nos livros dos historiadores. Isso é para os ficcionistas de primeira linha.
Para citar dois outros exemplos de autores vivos, não há tratado que mostre melhor o estranhamento entre raças na África do Sul do que o romance Desonra, de J.M. Coetzee; e não há história da II Guerra Mundial que mostre a miserável realidade da retirada de Dunquerque como o romance Reparação, de Ian Mcwen.
Leonardo Padura é um escritor que vive em Cuba, não quer sair de Cuba, mas que se permite ser crítico do regime e a quem o regime permite que viaje ao exterior (recentemente esteve no Brasil). Talvez seu caso antecipe tempos que estão por vir; ou talvez ilustre circunstâncias que o regime não tem mais força para conter.
O Homem que Amava os Cachorros reconstrói em capítulos alternados a trajetória de Trotsky, desde que, expulso da União Soviética, dá início à sua peregrinação de exilado, até a parada final no México, e a de Ramón Mercader, desde que, muito jovem, integrado aos batalhões comunistas, se engaja na Guerra Civil Espanhola.
Ao mesmo tempo em que obedece a uma rigorosa observância dos fatos, em suas linhas gerais, das datas e dos locais, a mão do ficcionista encarrega-se de imaginar diálogos e de intuir sentimentos, bem como de vestir os personagens com roupas que muito bem poderiam ter usado e fazê-los beber os drinques e fumar os cigarros que poderiam muito bem ter bebido e fumado.
O resultado é que a história deixa de ser matéria morta, deixa até mesmo de ser passado, para acontecer de novo. Eis o milagre em seu esplendor.
Trotsky estava marcado para morrer desde o momento em que personificou a oposição a Stalin na sucessão de Lenin, mas sua aniquilação será precedida, num ritual macabro, pela aniquilação de seus seguidores e dos membros de sua família. Enquanto isso Mercader era preparado com método que inclui a adoção de falsas identidades e o assassinato de um mendigo, para treinar-lhe as habilidades de assassino.
Isso e mais os julgamentos fabricados, as humilhantes confissões, os expurgos e os massacres cumprirão duas funções: não deixarão resquício de oposição ao todo-poderoso senhor do Kremlin e ferirão de morte, para sempre, as credenciais morais do regime dos sovietes.
Essa derrocada é dissecada passo a passo, no livro, com o talento de quem, como todo bom escritor, tem horror ao panfleto e sabe que nada supera, em contundência, a narração pura e simples.
Mas não é só o comunismo em sua versão soviética que desmorona no livro. É o sonho comunista como um todo. Sobra até para Trotsky, “com seu fanatismo obcecado e seu complexo de ser histórico”, como diz um personagem. E sobra para Cuba.
Um dos estratagemas do autor, na complexa construção do livro, foi inserir, em adição às histórias paralelas de Trotsky e de Mercader, uma terceira história, que se passa em Cuba entre os anos 1970 e o início dos anos 2000, na qual um escritor frustrado, a partir do encontro com um misterioso personagem, se esbate com a ideia de narrar a perseguição e o assassinato de Trotsky.
O sonho cubano vai de permeio virando miséria, e isso, para maior crueza e verossimilhança do relato, de uma perspectiva ao rés do chão, que não contempla senão o dia a dia de anônimos habitantes da ilha, e a vida como ela é. No fim do livro, quem lá chegar verá, o sonho cubano literalmente desaba, como desaba o telhado de uma casa na cabeça de seus moradores.

Incompetência federal

O governo federal instalou três “scanners” no porto seco de Dionisio Cerqueira para agilizar a passagem de caminhões de carga na fronteira com a Argentina. Os equipamentos não funcionam, porque até agora o governo não contratou o técnico para operá-los. Denúncia do presidente da Fetrancesc, Pedro Lopes, no “CresceSC”.
Vigilância
Com a Vigilância Sanitária Federal ocorre burocracia semelhante. A fiscal da Anvisa tem contrato de 20 horas, reside em Chapecó e retarda também a liberação dos caminhões de carga. Pedro Lopes revela que carretas ficam paradas até oito dias esperando por esta liberação da Anvisa.

Moacir Pereira

sábado, 7 de junho de 2014

Ricardo Teixeira tem R$ 100 milhões em conta secreta

JAMIL CHADE - O ESTADO DE S. PAULO
07 Junho 2014 | 16h 15

Valor está depositado em banco de Mônaco, onde o ex-presidente da CBF estaria sendo investigado por lavagem de dinheiro

O ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF)Ricardo Teixeira, teria mais de 30 milhões de euros (cerca de R$ 100 milhões) em uma conta secreta em Mônaco. A informação foi revelada pelo jornal eletrônico francêsMediapart, como parte de uma investigação conduzida sobre o banco Pache, uma filial do grupo Credit Mutuel.
O caso estaria sendo investigado pelas autoridades monegascas por lavagem de dinheiro, num processo conduzido pelo juiz Pierre Kuentz. Em gravações realizadas pela Justiça e obtidas pelo jornal francês, o nome de Teixeira é citado pelo diretor do banco, Jürg Schmid.
"Eu não quero ter de ficar explicando a situação a todos. Quando se faz barulho interno e externo, nós estaremos na rua", disse Schmid.
"Nós, no banco Pasche, temos uma situação em que devemos provavelmente aceitar clientes que outros bancos certamente não aceitariam", disse. Ele explicaria de forma mais precisa sua declaração. "Eu tenho um, o grande brasileiro", afirmou.
Ricardo Teixeira tem R$ 100 milhões em conta secreta
EX-PRESIDENTE DA CBF SOFRE ACUSAÇÃO DE JORNAL FRANCÊS
AP
"Eu sei muito bem que nenhum outro banco de Mônaco queria abrir uma conta dele", disse. "Agora, ninguém o quer porque se trata verdadeiramente de uma fria", estimou. "Mas nos fizemos tudo, já que temos a declaração de imposto e a declaração dos tribunais que dizem que ele não foi condenado", declarou. "Evidentemente, ele é conhecido, mundialmente conhecido", afirmou. "Portanto, existe um risco de reputação".
O banqueiro chegou a dar explicações sobre a origem do dinheiro. "Sabemos que ele recebeu dinheiro em troca de favores, mas não são políticos", disse. "Decidimos juntos que nós o receberíamos porque ele nos traz 30 milhões de euros e isso não é pouco", declarou Schmid.
Segundo o jornal, nos últimos meses, Teixeira teria feito diversas viagens até Mônaco. Ele teria passado pelo principado em janeiro, fevereiro, abril e maio de 2014, sempre ficando pelo menos dois ou três dias. De acordo com a publicação, o cartola se hospeda no luxuoso hotel Metropole e a conta é sempre paga pelo banco Pasche. Isso não seria por acaso: o hotel fica a poucos metros do banco. 

Coluna do Cláudio Humberto

  • Análise das pesquisas realizadas pelo instituto Datafolha, entre fevereiro e junho, mostram que a direção do PT tem motivos para andar preocupada. Desde os 44% das intenções de voto registrados em fevereiro até a pesquisa realizada entre terça (3) e quinta (5), Dilma caiu dez pontos percentuais. Em abril registrou uma queda, para 38%, e a tendência seguiu em maio, para 37%, até os 34% de junho.
    Compartilhar
  • Estudo do especialista Murilo Hidalgom com base no Datafolha, indica que Dilma caiu 9 pontos na região Norte somente de maio para junho.
    Compartilhar
  • A tendência de queda de Dilma se verificou também nas regiões Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste (4 pontos). No Sul, caiu menos: 2%.
    Compartilhar
  • A queda acentuada de Eduardo Campos no Datafolha deixou o PSB borocoxô. Com 7%, ele está empatado com Pastor Everaldo (PSC).
    Compartilhar
  • Dilma, eterna carrancuda, se diz surpreendida com o “mau humor”  contra a Copa. É que as graças prometidas por “São” Lula acabaram.
    Compartilhar
  • Um grupo de senadores, deputados e advogados, que negociam a “blindagem” de presidentes de grandes empreiteiras na CPI Mista da Petrobras, combinaram oferecer “carne aos leões”, vazando denúncias contra outros parceiros da estatal. O objetivo é tirar do foco os donos de empresas como Odebrecht, OAS, Queiroz Galvão, Camargo Corrêa etc. e negócios como a refinaria superfaturada de Abreu e Lima (PE).
    Compartilhar
  • O grupo, pago a peso de ouro, concorda com a dificuldade de blindar a operação da compra superfaturada da refinaria de Pasadena, nos EUA.
    Compartilhar
  • Estimada em R$ 3 bilhões, a obra da refinaria de Abreu e Lima já custou mais de R$ 20 bilhões e ainda está longe de ser concluída.
    Compartilhar
  • A estatal EBC, que transmite a TV Brasil “do Lula”, audiência zero, gastou R$ 2,3 milhões com seu próprio centro de transmissão na Copa.
    Compartilhar
  • Petistas passaram o dia mal humorados, ontem, com nova queda e a alta rejeição de Dilma atestados na pesquisa Datafolha. O desgaste faz a credibilidade da presidenta virar suco, dizem seus marqueteiros.
    Compartilhar
  • Estão adiantados os entendimentos para que o senador Eunício Oliveira (PMDB-CE), candidato favorito ao governo do Ceará, disponibilize seu palanque ao presidenciável Eduardo Campos (PSB).
    Compartilhar
  • Quem duvidava do declínio da popularidade da presidente Dilma Rousseff deve ter ficado impressionado com o coro impublicável da torcida contra ela, ontem, no jogo da seleção.
    Compartilhar
  • É de segunda divisão o time de 11 governantes latinos, africanos e do Qatar na abertura da Copa com Dilma, liderados pelo “goleiro” Ban Ki-Moon, da ONU, surdo a vaias após bolo de folha de coca boliviana.
    Compartilhar
  • Impedida pelo próprio partido de disputar a reeleição, a governadora potiguar Rosalba Ciarlini acusa o senador José Agripino, presidente do DEM, de trocar o governo pela reeleição do filho, deputado Felipe Maia.
    Compartilhar
  • A festa junina da creche Canarinho, na quarta (4), em Brasília, já não conta com sua grande atração: a filha de José Dirceu, hoje com 5 anos. Não vê-la, aliás, é o maior motivo de abatimento do ex-ministro de Lula.
    Compartilhar
  • O confronto entre o ex-governador Siqueira Campos e a senadora Katia Abreu (PMDB) agita a política de Tocantins. Ele é acusado de tentar destruí-la, e Katia segue candidata à reeleição, sem temê-lo.
    Compartilhar
  • Coordenador do núcleo digital do senador Aécio Neves (PSDB-MG) à presidência, Xico Graziano se reuniu com a bancada tucana para pedir empenho nas citações do nome do presidenciável nas redes sociais.
    Compartilhar
  • …sexta (6) foi o Dia D da Segunda Guerra na Normandia. Na quinta (12) será o Dia D de Dilma no primeiro turno.
    Compartilhar

Morre o ex-jogador do Internacional Fernandão

O ex-jogador do Internacional, Fernandão, morreu na queda de um helicóptero em Goiás neste sábado (07), aos 36 anos. O acidente ocorreu por volta de 1h30, na cidade de Aruanã. 

A informação foi confirmada à Rádio Gaúcha pelo presidente da Federação Gaúcha de Futebol, Francisco Noveletto, em entrevista ao Gaúcha Hoje. 

Fernandão estava na casa de praia em Aruanã, interior de Goiás, e voltava para Goiânia. O helicóptero, que pertencia ao ex-jogador, caiu nas proximidades do Rio Araguaia. 

Outras quatro pessoas estavam na aeronave. Seriam o piloto e amigos de Fernandão. De acordo com informações preliminares do Corpo de Bombeiros, não há sobreviventes.

Fernandão ainda chegou com vida ao hospital de Aruanã, mas morreu em atendimento.
Fonte: RÁDIO GUAÍBA

sexta-feira, 6 de junho de 2014

O esplêndido artigo do jornalista José Maria e Silva é leitura obrigatória: ‘Discípula de Paulo Freire assassina Machado de Assis’



machado-de-assis-aos-25-anos-size-598
Discípula de Paulo Freire assassina Machado de Assis, informa o título do artigo publicado pelo jornalista José Maria e Silva no jornal Opção, de Goiânia. “Em sua arbitrária simplificação de Machado de Assis, em que comete erros primários de interpretação de texto, a escritora-empresária Patrícia Secco embrutece o espírito do leitor ao falsear o mestre e descaracterizar seus personagens”, emenda o subtítulo. Impecável na forma e brilhante no conteúdo, a análise demonstra que a pretendida “adaptação” de O Alienista é um crime contra a literatura, um insulto ao escritor brasileiro, uma vigarice lucrativa e um monumento à imbecilidade. (AN)
JOSÉ MARIA E SILVA
Localizado nas proximidades do Viaduto do Chá, que, desde a inauguração em 1892, se tornou, durante muitos anos, o principal cartão postal da cidade de São Paulo, o Vale do Anhangabaú será palco, em junho próximo, de um evento literário inusitado — um túnel construído não por concreto, mas por 60 mil livros. Trata-se do lançamento da nova edição de uma das mais importantes obras da língua portuguesa de todos os tempos, a novela O Alienista, de Machado de Assis, que, depois da morte do escritor em 1908, separou-se de Papéis A­vulsos, o volume de contos em que fora originalmente publicado em 1882, e se tornou um livro autônomo, traduzido em vários idiomas. Mas não se trata exatamente da obra-prima de Machado — o que o leitor vai encontrar nesse lançamento faraônico é uma adaptação de O Alienista, coordenada pela escritora Patrícia Secco e patrocinada pelo Ministério da Cultura, por intermédio da Lei Rouanet.
“Entendo por que os jovens não gostam de Machado de Assis. Os livros dele têm cinco ou seis palavras que não entendem por frase. As construções são muito longas. Eu simplifico isso”, disse Patrícia Secco, em 4 de maio último, numa entrevista ao jornalista Chico Felliti, da Folha de S. Paulo. Proprietária da Secco Assessoria Empresarial S/C Ltda., que juntamente com sua pessoa física já teve aprovados no Ministério da Cultura projetos que somam cerca de R$ 10 milhões captados, Patrícia Secco produz literatura infanto-juvenil em ritmo industrial, com mais de 200 títulos publicados, a maioria com temas da moda, como meio ambiente, direitos humanos e inclusão social. Com o propósito de facilitar a leitura de quatro clássicos da literatura brasileira, Secco pedira autorização ao Ministério da Cultura para captar R$ 1,53 milhão; por incrível que pareça, foi autorizada a captar R$ 1,45 milhão, ou seja, quase o montante que havia pedido para seu projeto. Na prática, conseguiu captar uma cifra milionária — R$ 1,039 milhão — para produzir dois livros a serem lançados num mesmo volume: O Alienista, de Machado de Assis, e A Pata da Gazela, de José de Alencar.
A princípio, a ideia de adaptar um clássico não é necessariamente condenável, especialmente se for para crianças. As adaptações de clássicos da literatura — começando pela Bíblia — devem ser tão antigas quanto o ato de ler. Em sua já clássica Uma História da Leitura, o argentino-canadense Alberto Man­guel conta que, em 1387, John de Trevisa, que estava traduzindo do latim para o inglês a epopeiaPolychronicon, do monge beneditino Ranulf Higden (c. 1280-1364), resolveu fazê-lo não em versos, mas em prosa, pois sabia que o público já não queria ouvir uma recitação pública da obra (que, por sinal, se tornaria muito popular no século XV), preferindo lê-la diretamente. Da mesma forma, a Divina Comédia, de Dante Alighieri, originalmente escrita em versos, mereceu adaptações em prosa e versões condensadas para crianças, que exploram o viés aventureiro de sua viagem ao Inferno, Purgatório e Céu, transformando-o numa espécie de Julio Verne do espírito.
Uma das primeiras justificativas para se adaptar uma obra é, sem dúvida, sua extensão. Poucas crianças são capazes de ler um romance ou uma epopeia que se estende por mais de 500 páginas. A boa adaptação é uma espécie de resumo que tenta extrair a essência da obra sem desvirtuá-la. Carlos Heitor Cony, que adaptou diversos clássicos para o público infanto-juvenil, como Dostoievski, Melville, Mark Twain, Dumas, Gogol, Eça, Manoel An­tônio de Almeida e Julio Verne, ao ser indagado numa entrevista à revista “Cult” se reescrevia ou resumia os livros, respondeu: “Era uma condensação. Eu eliminava pontos mortos, alguns diálogos, detalhes técnicos. Deixava o texto mais denso. Mas preservava a história, o clima e principalmente a expectativa”. Cony foi taxativo: ”O bom adaptador não falseia o original”.
Facilitação de Machado nega o escritor
Infelizmente, Patrícia Secco falseia Machado de Assis. Além de lhe desfigurar o estilo, ela o emburrece. Sua adaptação é um retrocesso, que sacrifica até os avanços linguísticos do estilo machadiano, já ousadamente próximo da linguagem coloquial, numa antecipação das vanguardas do modernismo que só iriam se consolidar no Brasil quase meio século de-pois. A autora esqueceu-se de que Machado, assim como Borges, Beckett, Graciliano, não dá para ser adaptado em prosa sem que se perca a essência de sua arte. A obra machadiana é basicamente linguagem. Em seus romances, não há enredos rocambolescos nem profusão de personagens, como há em Homero, Cervantes e nos clássicos românticos. Mesmo O Alienista, talvez o enredo mais movimentado de toda a sua obra, depende substancialmente da linguagem, pois é nela que moram a argúcia e a ironia do conto.
Para justificar sua adaptação, Patrícia Secco recorre a afirmações demagógicas. “Estou horrorizada. É muito triste pensar que algumas pessoas acham que Machado de Assis, o mestre da literatura brasileira, não pode ser lido pelo sr. José, eletricista do bairro do Espinheiro, que, apesar de gostar de ler, não cursou mais que o primário, ou pelo Cristiano, faxineiro de uma farmácia de Boa Viagem, que não sabe nem mesmo o significado da palavra boticário”, disse a escritora-empresária à repórter Maria Fernanda Rodrigues, do Estadão, em matéria de 9 de maio último. Ora, quem disse que um faxineiro não pode compreender Machado de Assis? Se fosse assim, o próprio Machado — descendente de agregados e ex-escravos, somente com o ensino primário — nem existiria. Foi justamente porque em seu tempo não existia uma Patrícia Secco facilitando-lhe Camões, Vieira e Almeida Garrett que o Machadinho do Morro do Livramento embebeu-se dos clássicos, aprendeu francês sozinho e não apenas se tornou capaz de compreender os mestres da literatura universal como até mesmo se tornou um deles.
Com sua adaptação de O Alienista, a escritora-empresária Patrícia Secco destrói a universalidade da literatura de Machado de Assis com a pequenez ideológica da pedagogia de Paulo Freire. Foi o criador da “Pedagogia do Oprimido”, uma espécie de marxismo de autoajuda, quem consagrou a tese pedagógica de que o aprendizado é um epifenômeno das circunstâncias materiais e é somente a partir delas que se pode alfabetizar uma criança e despertar-lhe a consciência. O pedagogo brasileiro foi um grande admirador de Mao Tsé-Tung e, assim como o monstruoso comunista chinês mandava os lavradores arrancarem até as flores nativas, porque eram inúteis no universo do trabalho, Paulo Freire também arranca as palavras burguesas da cartilha do trabalhador, determinando a alfabetização a partir das tais “palavras geradoras”, como “tijolo”. É o que chamo de pedagogia análoga à escravidão — o filho do lavrador deve ter os olhos presos ao chão e está proibido de ouvir estrelas.
Patrícia Secco professa a mesma filosofia: se o faxineiro da farmácia não sabe o que é “boticário”, que se arranque então essa maldita palavra dos textos clássicos. Nunca ocorreu a ela que seria muito mais fácil, barato e respeitoso oferecer um dicionário ao faxineiro? Aliás, um trabalhador que resolva ler O Alienista — e isso está longe de ser raro — nem precisará de dicionário para descobrir o significado dessa palavra. O próprio conto, que sempre associa o boticário Crispim Soares a remédios, já lhe oferece a resposta. Além disso, tão logo veja a palavra no texto, o faxineiro irá se lembrar de que existe uma rede de perfumaria com esse nome e, por associação de ideias, poderá lembrar-se da palavra “botica” que pode ter ouvido a um parente mais velho. Caso não disponha de um dicionário em casa, o faxineiro machadiano sempre poderá consultar uma pessoa letrada de seu meio, parente ou um conhecido, que se não for capaz de sanar sua dúvida, saberá onde encontrar a resposta. Ou Patrícia Secco acha que só existe vida inteligente em seu meio social e que nas classes pobres não há ninguém capaz de trocar ideias com um faxineiro interessado em literatura?
Censo de 1872 abalou a literatura brasileira
O psicólogo Yves de La Taille, professor da USP e autor do livro Limites, considera que os limites morais comportam três dimensões, uma das quais significa desafio — uma pessoa, além de respeitar limites em face dos direitos dos outros e de impor limites em defesa de sua intimidade, deve também superar limites, o que significa superar a si mesma, buscando a maturidade e a excelência. É tudo o que Pa­trí­cia Secco não quer do leitor, com sua simplificação dos clássicos. Nin­guém aprende sem esforço próprio, recebendo tudo de mão bei­jada. Graciliano Ramos começou a ser escritor quando se sentiu de­safiado pelas mesóclises daCarta de ABC, do lendário A­bí­lio César Borges, o Barão de Ma­caú­bas, que trazia a máxima “fala pouco e bem, ter-te-ão por al­guém”. A frase o levaria a indagar à sua meia-irmã Mocinha se “ter-te-ão” era um homem. Co­mo Mo­ci­nha, a adolescente se­mial­fabetizada que o ensinou a ler, também não tinha ideia do que fosse aquilo, o me­nino Gra­ci­li­ano, enfezado vi­vente das Alagoas, criado a cascudos e beliscões, teve que descobrir so­zinho, devorando, antes dos dez anos, a prosa romântica de José de A­lencar, bem mais distante da linguagem comum do que a linguagem coloquial de Machado de Assis.
Ao se dar conta da indignação que sua proposta suscitou no País, desde um abaixo-assinado contrário até artigos e editoriais — Patrícia Secco publicou na Folha de S. Paulo, no dia 13 de maio, uma defesa de sua adaptação. O título do artigo não poderia ser menos machadiano: “Machado não gostaria de permanecer desconhecido para quem não lê”. Que afirmação mais esdrúxula! Ma­chado, revolucionariamente, sabia-se texto e, como tal, sabia-se também de­pendente do leitor. Em sua tese Os Leitores de Machado de Assis (Editora da USP, 2004), o professor da USP Hélio de Seixas Guimarães chega a sustentar que a obra machadiana foi influenciada pelo Censo de 1872 (o primeiro realizado no Brasil e divulgado em 1876), ao revelar que apenas 18,6% da população livre e 15,7% da população total, incluindo escravos, sabiam ler e escrever. “A tomada de consciência da escassez de leitores, problema que se inscreve de maneira cada vez mais radical em seus romances, parece-me fator relevante para ajudar a guinada que o escritor imprimiu a sua carreira”, escreve Seixas Guimarães.
Mas Machado de Assis, como sociólogo e psicólogo nato, também estava preocupado com os que não sabem — ou não querem — ler, oferecendo-lhes não a literatura-texto, mas a literatura-instituição, encarnada na Academia Brasileira de Letras, que detém até o monopólio legal da língua, tão grande é a sua importância. Aliás, ao contrário do que pensa Patrícia Secco, isso torna Machado de Assis o escritor mais conhecido pelos que não sabem — ou não querem — ler, nomeando ruas e escolas e simbolizando as letras nacionais da mesma forma que o desgrenhado Be­ethoven simboliza a música para quem nunca pisou numa sala de concerto e só conhece da música erudita o eterno “tchan-tchan-tchan” da Quinta Sinfonia. No próprio modo de composição da ABL, que aceita políticos e notáveis travestidos de escritores (como o Barão do Rio Branco, Marco Maciel e Ivo Pitan­guy), Machado de Assis revelou toda sua engenharia político-institucional, dando à literatura brasileira uma dignidade social que ela jamais poderia alcançar numa nação de analfabetos se continuasse sendo produzida em bares, por uma despreocupada geração de boêmios.
E quando procurou fazer da literatura brasileira também uma instituição social descarnada do texto, capaz de chamar a atenção da sociedade por outros meios, Machado de Assis não estava pensando exatamente nas camadas populares da nação — estou certo de que ele pensava, sobretudo, na preguiçosa elite nacional, que, mesmo sabendo e podendo ler, não lia, nem em seu tempo, nem hoje. Machado estava consciente de que, mesmo entre as elites, eram poucos os que tinham o habito da leitura, tanto que seu grande amigo José de Alencar se queixava de que o público conhecia mais O Guarani pelo teatro do que pelo texto do romance em si. Portanto, Patrícia Secco revela todo o seu preconceito contra os pobres quando cita uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo mostrando que 58% dos brasileiros não leram nenhum livro nos últimos seis meses e, logo em seguida, afirma que, “por trás desses números existem rostos e vidas”, mas ao desvendá-los só se lembra de pessoas como “Seu Roberto, motorista de táxi, o Cristiano, caixa da farmácia da esquina, a Dona Nice, copeira do escritório”, pois, segundo ela, “eles são não leitores”.
Ora, só eles? E quantos são leitores entre as elites econômica, social e política do País? Essa preocupação perpassa a obra de vários críticos ao longo do tempo, como José Ve­ríssimo, Sílvio Romero e Otto Maria Carpeaux, que se angustiavam com o grande número de profissionais liberais, como médicos, engenheiros, advogados, professores e outros profissionais de nível superior, que passam ao largo da literatura, limitando-se às leituras técnicas de suas respectivas áreas e reservando o tempo livre para outras formas de lazer, que nada têm a ver com as letras. Por isso, quando se pensa em pobre como sinônimo de não leitor, o que se quer, no fundo, é uma justificativa para arrancar dinheiro dos cofres públicos.
Simplificar livros agrava o problema da leitura
Linguagem difícil nunca foi o maior empecilho à leitura. Mário de Andrade, com seu espírito galhofeiro, disse que para se gostar de Machado de Assis é preciso já nascer velho. Eu vou mais longe: para se gostar de literatura é preciso envelhecer cedo. Por isso, o Eclesiastes diz que “o muito estudar enfado é da carne”. Em nenhuma época ou lugar, a leitura foi a mais popular das formas de lazer. A literatura é a mais reflexiva das artes e a maioria das pessoas abomina reflexão, que, para muitos, rima com depressão. Isso ocorre também com a música erudita. Quantas pessoas, ricas ou pobres, formadas ou não, tão logo se sentem tocadas por um concerto de Mozart, uma sonata de Beethoven, logo tendem a afastá-las dos ouvidos, pedindo uma “música alegre”, sob a alegação de que aquele tipo de música lhes provoca tristeza?
Creio que isso ocorre com qualquer povo, só que, no Brasil, fugir da reflexão como o diabo foge de cruz não é uma característica só das massas, mas também das elites. Uma frase de Machado de Assis talvez explique esse fenômeno: “A verdadeira ciência não é a que se incrusta para ornato, mas a que se assimila para nutrição”. Infelizmente, no Brasil, a educação nunca foi um meio de edificação intelectual e moral do indivíduo, como pregava Machado, mas um salvo-conduto para o sucesso social. Nas nações que levam a sério o conhecimento, o indivíduo primeiro busca o saber e, como consequência, conquista o diploma. No Brasil dá-se o contrário: o sujeito busca avidamente o diploma e, se sobrar tempo, vai à cata de algum conhecimento para fingir que não é de todo ignorante. Por isso, lê-se pouco no Brasil, mesmo entre a gente letrada: ler exige uma posição de sentido do espírito — que é cada vez mais rara numa nação que sempre desprezou o mérito.
Simplificar livros não resolve o problema — pelo contrário, agrava-o. Iniciativas como a de Patrícia Secco abastardam o povo brasileiro ao impedi-lo de conhecer o verdadeiro Machado de Assis, sufocado por uma montanha de 600 mil falsificações de sua obra. Nesta semana que passou, dormi menos de três horas por dia, em média, varando as madrugadas na comparação — linha por linha — da sagrada escritura de O Alienista de Machado de Assis com o apócrifo de mesmo nome da escritora Patrícia Secco. Ao cabo dessa ingente labuta (que Secco, toscamente, “traduziria” por “ao fim desse grande trabalho”), faço minha a indignação de Alcides Vilaça, professor da USP: “Apresentar como sendo de Machado de Assis uma mutilação bisonha de seu texto não devia dar cadeia?” Sim, devia dar cadeia, sobretudo para os tecnocratas do MEC que torraram mais de R$ 1 milhão dos cofres públicos nessa falsificação grosseira de Machado de Assis.
Machado de Assis para consumo próprio
Nem se pode chamar de adaptação esse trabalho de Patrícia Secco. Em sua arbitrária simplificação de O Alienista, com graves erros de interpretação de texto, a escritora-empresária embrutece o espírito do leitor ao falsear o estilo de Machado de Assis, descaracterizar seus personagens e descontextualizar sua obra. Segundo ela própria contou a Chico Felliti, da Folha, a equipe que “descomplica” o texto é formada “por um monte de gente” (expressão dela, segundo o jornalista), entre eles a própria escritora e “dois jornalistas amigos”. É como pegar pintores de parede num bar e levá-los para restaurar a Capela Sistina. O resultado não poderia ser pior. Onde Machado de Assis escreve: “Uma volúpia científica alumiou os olhos de Simão Bacamarte”; Patrícia Secco traduz: “Uma curiosidade científica iluminou os olhos de Simão Bacamarte”. Além de destruir a musicalidade da frase, a troca de palavras assassina o sentido do texto: “volúpia” tem uma forte conotação sexual, imprescindível para se compreender a paixão de Bacamarte pela ciência, algo que se perde completamente com a palavra “curiosidade”. Além do mais, palavras como “volúpia” e “alumiar” não precisam de tradução: a primeira pode ser lida na Bíblia ou ouvidas em homilias católicas e pregações evangélicas e a segunda, em que pese fazer parte do repertório clássico da língua, é perfeitamente compreensível para qualquer lavrador que nunca frequentou escola, mas sabe perfeitamente o que é uma candeia alumiando.
A impressão que fica é que Patrícia Secco e sua equipe traduziram Machado de Assis para consumo próprio. Ou alguém imagina que uma pessoa esforçada o suficiente para ler um livro não vai ser capaz de compreender, com a ajuda do contexto da obra, palavras e expressões como “congregar”, “atarantado”, “estatelar-se”, “pessoa de consideração”, “déspota”, “laudas”, “demanda”, “estar em erro”, “arruaças e clamores”, “vereança”, “eloquência”, “aritméticos”, “abono”, “vestuário”, “gaiato”, “intuito”, “oficiou”, “lusitana”, “juiz-de-fora” e outras do mesmo nível? Pois todas essas palavras foram substituídas por sinônimos catados arbitrariamente no dicionário sem levar em conta o contexto da obra muito menos o estilo do autor. Analisei minuciosamente a adaptação de Patrícia Secco e hei de voltar a ela. Mas já adianto: trata-se de um caso clínico de analfabetismo funcional, digno de ser recolhido às dependências da Casa Verde de Simão Bacamarte. Em vários momentos, Secco e sua equipe não conseguem compreender o que Machado diz com sua peculiar clareza e desvirtuam completamente o original.
Machado de Assis escreve: “Simão Bacamarte começou por organizar um pessoal de administração; e aceitando essa ideia ao boticário Crispim Soares, aceitou-lhe também dois sobrinhos”. Patrícia Secco deturpa: “Simão Bacamarte começou organizando um pessoal de administração. Convencendo o farmacêutico Crispim Soares, aceitou-lhe também dois sobrinhos”. Reparem no absurdo: a adaptadora transforma o alienista num subordinado do boticário, a quem precisa convencer sobre a necessidade de uma administração em seu próprio manicômio. Em outro trecho, o Padre Lopes diz: “Isso de estudar sempre, sempre, não é bom, vira o juízo”. A adaptadora reescreve: “Isso de estudar sempre, sempre, não é bom, prejudica o juízo”. Chega a ser inacreditável essa troca da popularíssima expressão “vira o juízo” por “prejudica o juízo”, um barbarismo que deve ter revirado o estômago do primeiro verme que roeu as frias carnes do defunto Brás Cubas!
Deturpando o enredo e a história
Machado conta que, como D. Evarista não conseguia ter filhos, o Dr. Simão Bacamarte “fez um estudo profundo da matéria, releu todos os escritores árabes e outros, que trouxera para Itaguaí, enviou consultas às universidades italianas e alemãs, e acabou por aconselhar à mulher um regímen alimentício especial”. Entretanto, “a ilustre dama, nutrida exclusivamente com a bela carne de porco de Itaguaí, não atendeu às admoestações do esposo; e à sua resistência, — explicável, mas inqualificável, — devemos a total extinção da dinastia dos Bacamartes”. Qualquer dona de casa sem nenhum estudo compreende que D. Evarista, por amor à saborosa carne de porco de Itaguaí, não quis fazer a dieta proposta pelo marido e, por isso, não conseguiu ter filhos. Agora vejam a versão analfabeto-funcional de Patrícia Secco: “[Simão Bacamarte] acabou por indicar à mulher um regime alimentício especial. A ilustre dama, que deveria se alimentar exclusivamente com a carne de porco de Itaguaí, não atendeu aos conselhos do esposo. E, à sua teimosia — explicável, mas inqualificável — devemos a total extinção da dinastia dos Bacamartes”. Ela simplesmente está dizendo que o alienista receitou uma dieta de carne de porco à esposa, quando foi o contrário.
Mais adiante, quando descreve a revolta dos Canjicas contra a Casa Verde, Machado de Assis narra: “Os dragões pararam, o capitão intimou à multidão que se dispersasse; mas, conquanto uma parte dela estivesse inclinada a isso, a outra parte apoiou fortemente o barbeiro”. Patrícia Secco estropia o texto: “Os soldados pararam, o capitão intimou à multidão que se dispersasse. Mas, enquanto uma parte dela estivesse inclinada a isso, a outra parte apoiou fortemente o barbeiro”. A adaptadora não faz ideia da conjunção “conquanto” e, em vez de recorrer a “embora”, a traduz por “enquanto”, transformado Machado em analfabeto. No mesmo episódio, o escritor diz que o capitão dos “dragões” mandou “carregar contra os Canjicas”. Patrícia Secco traduz “carregar” (que, no contexto, significa “investir contra”) por “disparar”, sem perceber que os dragões — como os “Dragões da Independência” de hoje — usavam espadas e não armas de fogo. Com isso, o leitor de sua adaptação vai achar que Machado de Assis fazia realismo mágico: uma tropa mete fogo na multidão e essa multidão arrosta as balas, sem medo da morte.
Uma das admiráveis qualidades do conto O Alienista é o cuidado com que a história aparece nele. Machado de Assis preocupa-se com os mínimos detalhes históricos e escreve que Simão Bacamarte era “o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas”. Patrícia Secco corrige para “Espanha”, sem fazer a menor ideia de que, na época colonial em que se passa a história, a Espanha era oficialmente chamada de “Reino das Espanhas”. Em outro trecho, Machado diz que, para D. Evarista, ver o Rio de Janeiro “equivalia ao sonho do hebreu cativo”, sintetizando nessa expressão a sensação de exílio e confinamento que a acanhada Itaguaí produzia no espírito frívolo da mulher de Bacamarte. Patrícia Secco estraga a imagem, substituindo “hebreu cativo” por “judeu cativo”. Ela confunde os hebreus que se tornaram escravos no Egito e foram libertados por Moisés com os filhos da tribo de Judá que, já na terra prometida de Canaã, séculos depois, emprestariam o nome de sua tribo para todo o povo eleito. Se ao citar Dante, Machado tivesse dito, com precisão histórica, “poeta florentino”, não tenho dúvida de que Patrícia Secco iria corrigir para “poeta italiano”. Aliás, numa das raras e lacônicas notas de rodapé, a adaptadora faz isso: ela diz que Averrois é um filósofo e poeta “hispano-árabe”. É o mesmo que chamar Santo Agostinho de filósofo romano-argelino.
Por que Patrícia Secco e sua equipe cometem essa profusão de erros de extrema gravidade ao adaptar o conto de Machado de Assis? Sem dúvida, porque não estão à altura da tarefa. No fundo, a escritora e seus amigos jornalistas, a cada vez que buscam um sinônimo para um termo ou expressão do conto, estão traduzindo a obra para eles próprios e não para o eletricista, o faxineiro, o motorista de táxi, que precisam menos do que eles dessa facilitação. Para se ter uma ideia do quanto é absurda essa adaptação, Machado empregou o termo “transeuntes” e a adaptadora achou por bem substituí-lo pela expressão “os que por ali passavam”. Imagino Patrícia Secco ouvindo uma rádio AM do interior na década de 70, quando o Brasil era muito menos escolarizado do que hoje. Ela ficaria pasmada (ou “espantada” conforme sua tradução de Machado) ao se dar conta de que um dos grandes sucessos de Tonico & Tinoco, dedicado por peões de fazenda às suas respectivas namoradas, era a canção O Gondoleiro do Amor, um poema de Castro Alves, cantado pela dupla caipira ao som de violinos. Saudosos tempos em que uma dupla de lavradores elevava o povo até Castro Alves; hoje, gente como Patrícia Secco faz é rebaixar o povo quando dá a ele um Machado de Assis no nível de si mesma.